Eu nunca fui das 20 pessoas mais politicamente corretas que eu conheço, nem de longe. Expressões Politicamente Incorretas como índio, gringo, país subdesenvolvido e palhaço (*) sempre fizeram parte do meu vocabulário. (**)
Depois que virei mãe, então – me tornei exemplo do que não se dizer. Por exemplo, quando Noah tinha um mês, e eu ainda me preocupava com germes e bactérias, não era raro que alguém me visse segurando mãozinha cheia de catarro de criança de 7 anos que se aproximava do meu filho e dizer “não põe a mão no meu filho, porra!” ”cuidado, ele é muito pequenininho, não se mexe em mãozinha de bebê”. Recebi vários olhares de reprovação dos pais dos pestinhas, todos devidamente ignorados.
Não sei quem foi que disse – e eu concord0 – que mãe pode se dar ao luxo de ser politicamente incorreta. Por exemplo, já ouvi mãe dizer que não contratou a babá porque ela tinha espinha. Já vi mãe furar fila, gritar com policial e bater em velhinha. Mãe pode.
Ontem, na fila do supermercado, eu me superei. Estava com o Noah nesse sling que eu adoro adoro adoro, com o qual vou a todos os lados e que – lógico! – é super seguro. Seguro mesmo, sling sueco. Já imaginou sueco fazendo um sling que arrebenta? Não consigo imaginar aquele povo alto e lôro dizendo, naquela linguagem cheia de trema e bolinha: “Både för dig och för oss! Vi på!” - ”Arrebentou o sling! O bebê caiu na chom!”)
Mas apesar das altas gargalhadas do Noah, que ADORA o tal do sling, ainda tem gente na rua que tem certeza de que dito objeto trata-se, na verdade, de algum tipo de instrumento de tortura viking. Todo santo dia escuto murmúrios de senhoras transeuntes:
- “tadinho”
- “ó, coitadinho”
- “meu deus, pobrezinho”
- Både för dig och för oss! Vi på!
E ouço ainda:
- “Mas ele não está sofrendo, coitado?”
- “Não machuca ele, não, coitado?”
- “E ele não vai cair, coitado?”
- Både för dig och för oss! Vi på, coitådö!
Então. Voltando a fila do supermercado. Vira a moça da frente e diz:
- “Escuta aqui, esse troço não machuca ele não, coitado?”
- “Olha, machucar machuca, mas eu nem ligo. Ele chora um pouco e se acostuma com a dor. Depois é só chegar em casa, limpar o sangue e pronto. Nem dá trabalho.”
Nem preciso dizer que a fila inteira me olhou como se eu fosse a reencarnação lactante de Saddam Hussein. Um escândalo que calou a boca da moça e me fez pensar que é legal isso de se fazer de louca. E pro inferno com o politicamente correto. Mãe pode.

Noah, sofrendo, na máquina de tortura viking
(*) Acreditem ou não, mas chamar alguem de palhaço, nessa nóia extrema direita do politicamente correto, pode render treta judicial : O palhaço palhaço, aquele tio simpático, que é palhaço por profissão, pode processar aquele que ouse chamar de palhaço quem palhaço não é.
(**) Eu ia dizer que a coisa tá preta mas – parece – essa expressão também é ofensiva e P.I.





