Roberta, trinta e poucos, mãe do fundão, daquelas que interrompe o pediatra quando ele está falando.
Este blog é dedicado a todas as mães que, como eu, foram presenteadas com criaturas tamanho PP, que choram sem motivo, regurgitam na sua blusa nova, produzem cocôs explosivos, fazem birra no supermercado e não deixam você dormir direito NUNCA MAIS nessa vida de meu deus. Mães exaustas, culpadas, cheias de dúvidas ou à beira de um ataque de nervos, mas que não trocariam esse perrengue todo por NADA nesse mundo.
Aviso: Contém palavras impróprias, desabafos malcriados, humor negro, apologia ao escatológico, uma calça 38 que não passa nem nas canelas, olheiras e falta de glamour em geral.
Estava na feira comprando meus carboidratos quando vi uma moça vestindo seu bebezinho de uns 3/4 meses num canguru bacanão. Ao lado dela uma senhora escolhendo suas batatas mas cuidando dos pepinos alheios suspira “coitadinho, esse negócio deve machucar tanto…”
Em homenagem a essa corajosa mãe e seu lindo bebê eu reblogo o post abaixo, um desabafo de quando Noah estava com 5 meses de vida, rodeado de palpiteiras profissionais. Impressão minha ou os palpiteiros somem assim que seu filho começa a andar? Por que, hein? Medo de que o bebê seja adestrado, tipo “canela, ataca canela!”
Mãe Pode (março 2009)
Eu nunca fui das 20 pessoas mais politicamente corretas que eu conheço, nem de longe. Expressões Politicamente Incorretas como índio, gringo, país subdesenvolvido e palhaço sempre fizeram parte do meu vocabulário.
Depois que virei mãe, então – me tornei exemplo do que não se dizer. Por exemplo, quando Noah tinha um mês, e eu ainda me preocupava com germes e bactérias, não era raro que alguém me visse segurando mãozinha catarrenta de criança de 7 anos que se aproximasse do meu filho e dizer “não põe a mão no meu filho, porra!” ”cuidado, ele é muito pequenininho, não se mexe em mãozinha de bebê”. Recebi vários olhares de reprovação dos pais dos pestinhas, todos devidamente ignorados.
Não sei quem foi que disse – e eu concord0 – que mãe pode se dar ao luxo de ser politicamente incorreta. Por exemplo, já ouvi mãe dizer que não contratou a babá porque ela tinha espinha. Já vi mãe furar fila, gritar com policial e bater em velhinha. Mãe pode.
Ontem, na fila do supermercado, eu me superei. Estava com o Noah nesse sling que eu adoro adoro adoro, com o qual vou a todos os lados e que – lógico! – é super seguro. Seguro mesmo, sling sueco. Já imaginou sueco fazendo um sling que arrebenta? Não consigo imaginar aquele povo alto e louro dizendo, naquela linguagem cheia de trema e bolinha:
“Både! För dig och för oss! Vi på!” (Fodeu! Arrebentou o sling! O bebê caiu na chom!)
Mas apesar da nítida segurança, ainda tem gente na rua que tem certeza de que dito objeto trata-se, na verdade, de algum tipo de instrumento de tortura viking. Todo santo dia escuto murmúrios de senhoras transeuntes:
- tadinho
- ó, coitadinho
- meu deus, pobrezinho
- Både för dig och för oss! Vi på!
E ouço ainda:
- “Mas ele não está sofrendo, coitado?”
- “Não machuca ele, não, coitado?”
- “E ele não vai cair, coitado?”
- Både för dig och för oss! Vi på, coitådö!
Então. Voltando a fila do supermercado. Vira a moça da frente e diz:
- Escuta aqui, esse troço não machuca ele não, coitado?
- Olha, machucar machuca, mas sabe que eu nem ligo? Ele chora um pouco e se acostuma com a dor. Depois é só chegar em casa, limpar o sangue e voilá!
Nem preciso dizer que a fila inteira me olhou como se eu fosse a reencarnação lactante de Saddam Hussein. Um escândalo que calou a boca da moça e me fez pensar que é legal isso de se fazer de louca. E pro inferno com o politicamente correto. Mãe pode.
Então, filho, como eu espero que um dia você leia esse blog e tire suas próprias conclusões sobre a louca da sua mãe sua infância, separei algumas corujices pra que você saiba quem você era e o que fazia aos 15 meses.
Manhêêêêê!!!!!!!
Essa é uma fase grude, tudo é mamãe, mamãe, mamãe. Quer dizer, era. Desde que sua vó esteve aqui, no mês passado, e você me ouviu chamá-la “manhê” você achou a palavra manhê beeeem mais legal. Eis o que eu escuto em 85% do meu dia:
Love is in the air…
O papai também deixou de ser papai. Desde a semana passada você só chama o papai de “amor” que é coincidentemente a maneira como a mamãe se refere a ele. Os vizinhos devem adorar tanto amor desde as 7 da manhã.
Chatterbox
Você a-do-ra falar. Ama, simplesmente, ama. Fala acordado, fala dormindo. Ontem a noite eu te ouvi sonâmbulo falando “não não não” e depois “é meu, é meu, é meu”. Provavelmente um pesadelo, onde o menino Felipe te roubava um brinquedo ou a namorada. O bonitinho de te ver falando é perceber que você quer imitar nossa cantadinha na hora de falar. Assim ó:
Bate-papo de boteco
Muitas vezes não faz o menor sentido o que você fala. Mas aqueles anos de boteco afinal servem pra alguma coisa: quem entende bêbado há de entender as tuas confidências, filho.
I’m a bad bad boy
Desde que você nasceu você faz uma cara de bravo apaixonante e há alguns meses você aprendeu que as pessoas acham isso engraçado. Então faz questão de fazer a tal cara de bravo. Que dura, como você pode ver, cerca de meio segundo.
Enfim, coisas de mãe filmar essas pequenices. Mas eu tenho a impressão que esses videozinhos ainda me serão muito úteis, em alguns anos, quando meu discurso for:
“Oi, muito prazer Fernanda. Noah fala muito bem de você. Então, quer ver como ele era com 15 meses?”
E se a tua namorada for das minhas ela vai ganhar a sogra assim:
“Eu vou ficar aqui na sala com sua mãe, Noah! Tô louca pra te ver bebezinho.”
- Roberta, mas você fechou o olho o tempo todo! Perdeu as partes mais legais do filme, maó bobona você.
- Ai, Kátia, me deixa! Credo, eu não gosto das cenas de sangue. Sei que é tudo bili-bili mas mesmo assim dá um medo…
- Que é isso, bili-bili?
- Ah, deixa pra lá, vai.
(diálogo entre as meninas Kátia e Roberta, na saída do cinema, após exibição de “A volta dos mortos vivos”. Brasil, anos 80, mascando chicletes mini)
chicletes mini
Bili-bili foi um termo – até onde eu sei – inventado pelo meu pai. Não sei da onde ele tirou ou com quem aprendeu e nem tenho a pretensão de acreditar que se trata de estrangerismo adotado por papai. Apesar de admitir que cheguei a mentir a respeito do tema, por insistência da menina Ana Felipa.
Roberta : Não, meu pai não inventou bili-bili, tá, Ana? Essa palavra já existia.
Ana Felipa: Ai, nem existia, Roberta, foi teu pai que inventou, admite tá bom?
R: Existe sim, é palavra americana, burra! Tipo “billy-billy”, que significa “de mentirinha”. Nos Estados Unidos o pessoal fala di-re-to, tá Ana?
Bili-bili era prenúncio de cena forte ou imprópria, porém “de mentira”. Meu pai tinha um timing excelente para a coisa.
- Filha, agora não tenha medo e não te assusta, que a seguir vem uma cena onde tudo é bili-bili.
Pra mim essa era a hora de fechar os olhos e me concentrar no mantra “é tudo catchup, é tudo catchup, o sangue é catchup, o sangue é bili-bili”.
Os anos passaram e o bili-bili, de certa forma, sempre me acompanhou.
Por exemplo, sujeito de 15 anos de idade me pedia em namoro e me jurava amor eterno - bili-bili. Chefe me prometia aumento – bili-bili. Em filmes de terror, até hoje me pego pensando- Deixa de ser ridícula, essa mulher não vai morrer de verdade, ela é uma atriz, é bili-bili. Trouxa é tu que é ainda por cima mal paga.
Quanto mais velha – mais cética, e, portanto, maior o bili-bili. Governador corrupto foi preso? Não comemora muito ,não, que essa porra é bili-bili. Como também é bili-bili que o prefeito vá ler minha carta. Respondê-la, então – bilibilibilibilibilibili.
E também tem a pessoa-bili-bili, um tipo de gente que simplesmente não parece ser de verdade, posto que perfeita demais, compreende? Angelina e Brad, por exemplo – Bili-bili.
E há também os ricos demais. O último que presenciei foi na (loja de departamento) Harrods, em Londres: o bem vestido cliente comprava um broche abarrotado de diamantes para a filha de 8 anos. O broche tinha o formato de um cavalo e o tamanho de uma ameixa preta. Alonguei os ouvidos e escutei a justificativa que ele dava a vendedora:
- é que no sábado minha filha montará a cavalo pela primeira vez…esse broche é uma lembrancinha, para que ela nunca esqueça da data.
Tipo, eu ganhei um copo d’agua depois de montar a primeira vez. Isso e uma dor alucinante nas nádegas.
Nesta categoria too rich to be true se incluem todos aqueles que vivem distantes da realidade da pessoa física que vos escreve. Os que possuem avião próprio, por exemplo – irritantes e bili bili de pai e mãe.
Enfim. E eu cheguei até aqui sem saber porque raios resolvi lembrar do bili-bili de meu pai. Foco, Roberta, foco. Ah. Já sei. Talvez tenha sido pelo ocorrido no carnaval.
Eis que a pessoa se organiza com a família, de modo a passar aqueles dias encalorados de festa profana em país com temperatura mais apropriada e entretenimento menos carnal.
Foi mais ou menos assim, minha gente pé no chão: passagem comprada, vôo confirmado e Noah adoece, febre e muito catarro (glamour?). Catarro esse instalado principalmente no ouvido, o que provocaria uma dor sem parâmetros, coitadinho, durante o vôo. Então decidimos poupá-lo dessa dor. Havia também algum catarro nos pulmões e a tal da febre, quadro esse que certamente não melhoraria com a chegada aos -7 de temperatura.
Adiamos a viagem (e essa não foi a primeira vez) e constatamos o que já sabíamos: com criança a vida fica mais gostosa, tem mais aventuras e é infinitamente mais cheia de amor. Mas vida com criança também é ridiculamente imprevisível: um segundo lá estão vocês de malas prontas, presentes comprados, família ansiosamente esperando e, piscou o olho, lá estão vocês, na emergência do Copa D’or.
E minha cunhada nos esperando com tudo organizado e pronto e lindo e fofo.. Très, très désolé, Isa! Pena, mas prioridades são prioridades, e Noah é definitivamente o number one, sempre. E não existe paris, ótimos vinhos, excelente comida, clima romântico, jantar com a família reunida, sogros cuidando do pequeno enquanto os pais constatam que la vie é mesmo bela pra cacete etc etc etc que seja mais importante que a saúde e o bem estar do nosso filhote.
(mas que sair dos 40 graus cariocas rumo aos -7 parisienses definitivamente acrescentaria aquele tão precisado glamour ao curriculo vital da pessoa, ah, isso acrescentaria, combinamos? ”O casal foge do calor dos trópicos e apresenta Noah ao seu primeiro capuccino na capital francesa.”)
Ai, o mundo dos bili-bili.
***
Em tempo: foto tirada no domingo, no Jardim Botânico. O pequeno virou fã de peixes em geral – não pode ver um que já faz a boca de peixinho. Isso é quase sempre engraçado e deveras inesperado dado ao mumero de pessoas que circulam com peixes ou tubarões estampados na camiseta. Para cada um Noah oferece uma boca peixinho. E a mãe faz junto - que é pra manter o espírito de parceria (e a fama de pessoa equilibrada.)
Esta é pra você reforçar aquela idéia de que piratas são sujeitos barbudos, bêbados e imundos…
… aquele sujeito que nunca sorri e que mantem aquele semblante de bad boy que a mulherada tanto aprecia…
espera, tira a foto na frente da esco...
A fantasia é do Mamãe eu Quero e eu adorei: fresquinha, super confortável e lindinha de tudo, né gente? Ju, você já era minha cliente, agora eu virei a sua! Só falta a gente arrumar tempo pro tal cafezinho. Bom carnaval!