E eis que de repente, não mais que de repente, seu filho passa a dormir a noite inteira.
E você agradece aos céus, acende vela e atribui o milagre aos bons fluidos do novo apartamento, para o qual vocês mudaram recentemente.
- Deve ser o tal feng shui, conclui você.
Você sabe que, no fundo, não tem mérito nenhum na nova conquista do seu filho, visto que nunca conseguiu colocar em prática a vasta literatura empoeirada na estante. A literatura, aquela literatura, lembra? Que basicamente manda você deixar o rapaz se estrebuchar de chorar até que ele volte a dormir?
Você até tentou, por 3 minutos. Mas morreu de pena do filhote, tadinho.
E depois tem o seu problema de carência, aquela voz irritante na sua cabeça que diz “todos precisam me amar, todos precisam me amar, os vizinhos precisam me amar, eu preciso ser amada”. E vizinho que não dorme, não ama. Então você aposenta a literatura e fica em paz com os vizinhos.
Mas a paciência e o otimismo venceram: você foi pacientemente acordada no meio da noite durante 15 meses, então é merecedora dessa nova fase, esse amadurecimento, essa recompensa divina.
Deus ouviu minhas preces e a vida recomeça agora!
***
Pausa para uma verdade menos romântica. Diálogo entre marido e eu, na cama, antes de dormir:
- Amor, o único problema desse apartamento é esse ar condicionado do nosso quarto, né não? Ele é muito barulhento, p*** que o p****! A gente precisa trocar ele ur-gen-te.
- Putz, nem me fala. Não dá nem pra ouvir quando o telefone toca. Essa m**** de ar condicionado mais parece um helicóptero, cara***.
- Mas tudo bem, vai. A gente não pode reclamar: o novo apê é bem legal, a gente mora perto da escolinha, o Noah tá dormindo a noite inteira…
- Ai, nem fala, que bom, que bom!! Estranho que foi de uma hora pra outra, né, que ele resolveu dormir direitinho, sem acordar?
- Verdade. De uma hora pra outra…foi o que? Na quinta-feira?
- Não lembro, acho que…não, não, foi na sexta, sexta-feira. Isso mesmo, sexta -exatamente aquela noite que o ar condicionado do nosso quarto deu pau e começou a fazer aquela barulheira, lembra?
- Foi mesmo. Coincidência.
***
Por isso, cara colega, se você sofre com as repetidas acordadelas da cria ,madrugada a dentro, não perca o Best Seller:
“O Encantador de Bebês: Saiba como o ar condicionado barulhento do meu quarto fez meu filho dormir a noite inteira.”
(Editora Milagres)
***
Ai, gentes, um pouquinho de culpa. Mas já passa.
Só pra terminar a questão da Dona Eunice. Bom, pelos comentários e emails recebidos gostaria de dizer o seguinte:
1 – Eunice poderia parir em uma das Casas de Parto espalhadas pelo Brasil. Li coisas muito bacanas a respeito delas. Coisas não divulgadas, provavelmente porque não agrada o bolso de tubarão, não faz rico mais rico e não saiu na novela das 8. Foi uma surpresa boa.
Mas como Eunice teve uma cesareana prévia (ela pariu com o médico do plano de saúde, lembra?) ela não poderia ususfruir da gratuidade e profissionalismo da Casa de Parto. Também não podem ter o parto realizado em CP mulheres:
- Com idade gestacional inferior a 37 semanas ou superior a 42 semanas;
- Com cardiopatias, hipertensão, colagenoses, hemoglobinopatias, diabetes, HIVA;
- Mulheres com eclâmpsia, hemorragias graves, deslocamento prematuro da placenta, placenta prévia, cesariana, acretismo placentário;
- Mulheres com gravidez gemelar;
- Mulheres cujos bebês estejam pélvicos ou transversos (a posição deve ser cefálica).
- Mulheres com parâmetros biofísicos não normais (devem ser “normais”: a quantidade de líquido amniótico, a movimentação e reatividade fetais e a amnioscopia.
Fonte: Hospital Virtual Brasileiro http://www.hospvirt.org.br/
…e nossa querida Mariana, ela!
2. Eunice poderia pagar seu parto humanizado com um profissional particular bacana, que parcelaria o parto em suaves prestações.
Aqui, controvérsias (juuura?)
Ouvi de mulheres que encontraram profissionais com P maiúsculo, gente muito bacana, que realiza PH em casa ou em hospital e fazem um preço camarada, devidamente parcelado e com toda a compreensão e respeito do mundo. Ouvi até de profissionais que “penduraram” e deixaram pra receber depois que a parturiente estivesse melhor de grana. O que, segundo ela, não ocorreu até hoje
Também ouvi pessoas que conseguiram reembolso do seu PH junto aos Planos de Saúde, o que é mais bacana ainda. Vale a pena se informar a respeito. Pensou que legal?
Por outro lado, ouvi histórias biazarras de profissionais “humanistas” que cobram ágio caso o parto ocorra aos finais de semana, feriados ou madrugadas (no cálculo de meu astuto e querido marido há uma probabilidade de 72% que isso ocorra, hello doutor, a gente sacou qual a sua, tá?) ou ainda aquele que cobra uma pequena fortuna, só para demosntrar toda a humanidade existente em seu coração.
Eu acredito que essa diferença de preço possa sim estar relacionada com a cidade onde a pretendente a PH vive. Sim, porque não pode ser coincidência que mulheres do eixo Rio-SP se sintam bem mais satisfeitas dos que a de Manaus, interior de Minas e Brasilia, concordam?
O que é inaceitável minha gente que mora no eixo (incluindo eu mesma) é agir com desdem e preconceito com mulheres que dizem não ter encontrado ajuda sem nem antes verificar as condições da região onde ela vive. Por isso que tanta gente foge dos grupos radicais. Me parece algo assim “Olha, eu moro em SP, consegui um super preço, tive um super parto e, se você não conseguiu o mesmo é porque não quis o suficiente, falô?” Feio, egoísta e péssimo exemplo pra filharada, credo!
Também existe gente que simplesmente não quer parir em casa e pronto. Meu caso, minhas razões e eu não devo satisfação a ninguem em relação a isso. Deus me livre ter que me justificar. Aliás essa nem é uma causa a qual me agarro pois sou daquelas que acredita que ninguem é mais ou menos mãe pelo tipo de parto que teve.
Mas acho que toda mulher brasileira deveria ter o direito de optar por um parto digno, o parto que ela queira e não aquela imposta pelo médico, governo ou plano de saúde. Engravatado nenhum tem o direito de dizer de que maneira uma mulher deve parir.
E o post da Eunice só serviu para saber se o PH é viável financeiramente e gerar discussões que geram outras discussões que um dia podem se tornar lei. Uma lei boa pra nós, mulheres. Para os que já nasceram sem esperanças, desculpem. Eu sou das últimas sonhadoras.
Mas como eu já disse, essa não é a minha causa (apesar de ser de todos nós ao mesmo tempo, eu sei). Você entendeu o que eu quis dizer. Você pode ter outras causas na vida como salvar as baleias. A minha tem a ver com político safado. Odeio Jader Barbalho tanto quanto você odeio um médico intervencioniasta. Cada um no seu quadrado e ainda bem que é assim. O que seria das baleias se todo mundo só quisesse salvar os pandas?
Mas se você sente que a sua maior causa é levar o Parto Humanizado ao maior número de pessoas, então parabéns, you make us proud! E sei que tem um monte de gente batalhando, escrevendo, balançando, sacudindo pela causa. E sem ofender ninguém. Isso é prático. Isso gera resultados.
Mas como recebi meia dúzia de anônimos comentários e emails desaforados, deixa eu dizer que eu acho que nem tudo que reluz é ouro, meninas?
Existem mulheres realmente engajadas e que sinceramente querem te ajudar a ter um parto incrível.
Mas existe uma meia dúzia que, de verdade, só quer se auto-afirmar. Essa não agarrou uma causa, agarrou sim uma causa pra discursar. Um discurso vazio, que se rompe assim que você pergunta ”você pode me passar o site, ou pode dar o nome desse profissional de Alagoas?”
Gente, pessoa assim ama o discurso, e não a causa.
Pessoa assim não quer a vitória alheia. Ela quer, acima de tudo, impor as suas escolhas e desmerecer as outras. Ela não luta pra formar um grupo atuante, que forneça endereços, preços, apoio. Ela sim faz parte de um grupo que só atua no sentido de desmerecer, humilhar e desdenhar o seu parto. Ela vive do passado e desdenha aquelas que não escolheram a sua escolha.
Triste.
Acho que eu vi uma dessas mães outro dia num aniversário de criança. De cara feia, séria, de canto o tempo todo, segurando a tapauer com a comida vegetariana que trouxe pro filho. O filho, um menino de seus 3 anos, calado, ficava o tempo todo ao lado dela. Lá pelas tantas, ela agarrou o coitadinho pelo braço e disse:
- Vam’bora, filho. Que aqui ninguem gosta da gente.
Pobre mãe. Pobre criança.
ps: Aos vegetarianos: me odeia, não, colega! Eu sou totalmente quinoa girl e levo meus potinhos pra cima e pra baixo também, viu?
Eunice trabalha no Banco do Brasil. Ganha R$ 1.500,00 por mês o que, somados aos R$ 1.200,00 percebidos pelo marido garante o pagamento do aluguel de R$ 650,00, o condomínio de R$ 90,00 e os planos de saúde do casal e do filho Ricardinho. Não sobra muito para prestações em geral, mas ainda bem que a geladeira já foi quitada. E que Ricardinho estuda em colégio público. E que o pré-natal de Eunice está correndo tranquilo, como planejado.
O que muitos não sabem é que Eunice já teve seus momentos de estrela e lembra com carinho da época em que figurou como modelo principal em um encarte de uma famosa loja de eletrodomésticos. Que belos tempos.
Talvez tenha sido por isso que Eunice tenha se emocionado tanto ao ver Gisele Bundchen no fantástico aquela noite, falando sobre seu parto, na banheira, sem anestesia.
- Vem ver, Arnaldo, olha que coisa linda! Ah, eu quero parir assim, feito a Gisele.
No outro dia ela mal conseguiu trabalhar. Lembrava exatamente do que havia passado no parto do seu filho, um parto cheio de intervenções, um médico mal humorado, apressado e intervencionista.
- Mas era o médico do Plano, vou reclamar?
Mas essa vez ia ser diferente. Ela ia parir de forma natural, se possível na banheira, feito a Gisele Bundchen. Futucou, procurou, entrou no google, tudo pra saber mais e descolar o nome do profissional que pudesse ajudá-la a parir como Gisele. Mas no final, foi a filha do gerente do banco quem passou o contato pra Eunice.
- Ela é maravilhosa, você vai adorar.
E Eunice saiu saltitante, contato na mão e aquela emoção que ficou do discurso da moça, sobre o empoderamento da mulher e tal e coisa. Eunice só faltou chorar.
No outro dia ela saiu pra trabalhar como sempre, deu um beijão no marido e avisou:
- Arnaldo, hoje eu vou ligar lá pra mulher do parto humanizado. Na hora do almoço te ligo pra dizer como foi.
- Eunice, isso é pra gente rica, meu amor. Du-vi-de-o-dó que nosso plano vá pagar negócio de parir de cócora, Eunice. Acorda!
- Ai, Arnaldo, teu problema é que você é negativo, viu? Olha, beijo, e não esquece de botar crédito no seu celular!
E Eunice foi. E ela esperou a hora do almoço pra ligar pra profissional. E, ansiosa, ela ligou. E a medida em que as coisas se esclareciam e os valores vinham a tona, o sorriso de Eunice foi se desmanchando. Só se ela vendesse a geladeira, pensou.
- Olha, e tem um ágio de 30% se o parto ocorrer num feriado, fim de semana ou madrugada.
E Eunice fechou os olhos e imaginou as primeiras contrações ocorrendo num sábado de manhã:
- Ai, Arnaldo, acho que num vai dar pra esperar até segunda-feira, não…aaaaai ai ui aaaai!
- Eunice, meu amor, Eunice, pelamordedeus segura mais um pouquinho, só mais dois dias e a gente não vai precisar vender o berço e o carrinho…ó aperta a mão, aperta a mão que passa.
E foi com essa cena na cabeça que Eunice desligou o telefone e disse adeus ao sonho de parir de uma maneira mais humana. Voltou pro Banco, enxugou as lágrimas e jogou no lixo a Revista Caras com a Gisele na capa.
***
Ps: esse post é dedicado a todas as mulheres que gostariam de ter um parto mais “digno” mas não podem bancar tamanha dignidade. Esse post serve também para encorajar histórias de sucesso pois ler relatos de P.H. é sempre bonito e renovador. Eu mesma já li trocentos e choro cada vez.
Mas ele serve também para repudiar qualquer forma de crítica, discriminação e ofensa aquelas mulheres que não podem “optar” por um parto humanizado. Tal atitude é, ao meu ver, cruel e NADA humana.
PS2: Paloma, seu post (e sua perspicácia) me inspiraram
PS3: Alguem saberia me dizer se já existe um movimento no sentido de “popularizar” o parto humanizado? Existem médicos que aceitam planos de saúde?
PS4: Diga não ao radicalismo mal direcionado e sim ao radicalismo contra quem realmente importa. Ajude a Eunice. Não a critique – é mais inteligente e surte muito mais efeito (e ela não vai te achar uma pentelha, dona da verdade…)
PS5: A Eunice não chama Eunice, e o Banco do Brasil não tem nada a ver com isso. Juro por Deus.
Querido filho,
Tendo em vista que você ontem sorriu ao ver sua mãe saindo de casa com um chinelo de cada cor, resolvi que era hora de você saber um pouquinho mais sobre mim. Coisa pouca, bobagenzinhas. Detalhes da personalidade que fazem da sua mãe a sua mãe e não a mãe de outro. Tá tudo aqui. Tudo que ouvir a mais por aí é boato, exagero ou intriga da oposição.
1. Sua mãe, quando distraída, sai com sapatos de cores diferentes:
Ou vai pra academia fazer yoga, entra na sala errada e, lá pelas tantas, percebe que é boxe tailandês e não yoga que está rolando naquela sala. O que seria bastante aceitável se, o “lá pelas tantas”, não se traduzisse em 10 longos minutos em que ela de fato praticou o tal boxe sem perceber.
2. Sua mãe sofre de Mania de Perseguição Tecnológica:
Isso é difícil de explicar, mas vou tentar dar um exemplo, filhote: Se eu baixo um filme e depois tenho que optar entre dois programas do computador para abri-lo, fico sempre ressabiada porque entendo que os programadores vão se vingar e que o programa não escolhido por mim vai comer meus documentos ou apagar fotografias. Entende? Isso não chega a ser doentio, de jeito nenhum. Doentio seria se eu achasse que o Windows Player fosse aplicar outros tipos de vingança real, como me perseguir na rua ou arranhar minha bicicleta.
3. O que leva a mais uma patologia ligada a computadores:
Sua mãe NUNCA JAMAIS consegue ler aquelas combinações de letras e números que servem para confirmar nossa identidade no mundo virtual, sabe quais? Aquelas que geralmente vem precedidas de “por favor, digite o que você vê na imagem ao lado” . Uns códigos do tipo jAxK7. Enfim, mais um complô da tecnologia contra a minha pessoa.
4. Tenho obssessão (ui, detesto essa palavra) com segurança:
Checo as portas, checo se não existem coisas que você possa engolir e, principalmente, as normas de incêndio da tua escola. Já cheguei a sugerir técnicas de fuga de incêndio, que incluiam enrolar bebês em lençois e descê-los pela janela de trás. Não só juro por Deus que fiz isso como acredito que esta técnica ainda vai me render uma condecoração da Cruz Vermelha.
5. Confesso que posso ser meio exagerada:
Vou exemplificar: o ano era 2008 e eu estava grávida de você. O médico achou que meu coração estava betendo meio engraçado e sugeriu uma visita ao cardiologista. Fui ao cardiologista, que me pediu uma ultra do coração, nada grave, disse ele. Ligo pro teu pai:
- François, ainda que ela insista, eles precisam ficar.
- Eles quem, Roberta?
- Os porta-retratos com as minhas fotos.
- Que?
- Os porta-retratos, com as minhas fotos, espalhados pela casa. Ainda que ela queira tirá-los você precisa me jurar que eles ficam! (lágrimas, soluços, desespero)
- Que? Ro???? Ela quem, Jesus??
- A tua futura esposa, aquela-zinha!! Eu sei que ela vai arrancar todas as minhas fotos e o Noah vai acabar nem sabendo quem a mãe de verdade foi! Nunca vai saber! Vai pensar que eu nunca existi!!! (mais lágrimas, mais soluços, mais desespero)
- Amor, que papo esse, meu deus, o que aconteceu?
- François, eu vou morrer. Mal devo sobreviver ao parto. Então você precisa me prometer que os porta-retratos ficam!
***
E daí que a sua mãe não é perfeita, hein filho? Pelo menos agora você já sabe tudo: qualquer coisa além disso é exagero, boato ou intriga da oposição.
(ou foi, pro seu próprio bem, censurado pela mamãe)