Hoje eu recebi uma cliente fofíssima, a Helen. Helen é inglesa, se apaixonou por um brasileiro e veio viver com ele aqui no Rio de Janeiro. Eles então tiveram uma linda bebê – a Ingrid, hoje com 2 meses.
Conheci Helen quando ela estava grávida: pessoa risonha, falante e totalmente de bem com a vida. Agora, na versão mãe, ela me pareceu a mesma pessoa, exceto pela barriga que virou bebê e o par de olheiras que nascem na base do olho e seguem até o pescoço. Minto. As minhas olheiras é que fazem o trajeto olho/pescoço. Em pessoa alta e loura feito a Helen, as olheiras geralmente são discretas, contidas e educadas.
Quando encontro alguém com um bebê tão pequeno eu uso minha técnica do vai-roberta-vê-se-tenta-calar-a-boca-e-escuta-a-moça, que era o que eu mais sonhava que me acontecesse quando Noah era bebezinho. E ai, como era difícil. Todo mundo sempre tinha alguma coisa a dizer. A maioria é até bem intencionada, mas putaquel, quanto palpite.
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Eu tento me conter – só sou palpiteira em casos extremos. Como, por exemplo, quando vi um bebê de seus 3 meses vestido com 5 camadas de roupas de lã em pleno verão carioca, suando em bicas, o pobrezinho.
Nesses casos o palpite é necessário, tudo em nome da continuidade da espécie.
Ao ver aquele bebezinho derretendo resolvi usar de uma técnica sutil de palpitamento: o método do Palpite Disfarçado de Mentirinha Necessária.
Funciona assim: você aborda a vítima e, como quem não quer nada, diz:
- Nossa, dá uma impressão que nossos bebês estão com frio, né? Tão pequenininhos! Acho que vou colocar um casaquinho no filhote – você diz, fingindo aquecer a mãozinha dele.
- Verdade. Melhor agasalhar – diz a moça.
- Se bem que…acho melhor não….depois do que eu li na Veja…
- Na Veja? Na revista? O que?
- Não, nada não. Deixa pra lá. Deve ser exagero de jornalista.
- Será? Mas era uma matéria sobre agasalhar demais os bebês?
- Sobre bebês desidratados e tal. Parece que desidratação é …ai, deixa pra lá, não dá pra se fiar na Veja.
Reparei que ela foi tirando as 5 camadas de roupa do bebê e escutei ela dizer baixinho: ”Ai, meu deus, tá ensopado, será que desidratou, gente?!”
- Olha, longe de mim dar palpite. Mas coloca no peito que hidrata.
E fui embora, antes que ela me perguntasse qual era a porra da edição da Veja que trazia essa matéria sobre bebês desidratados. Missão cumprida, eu tinha certeza que tinha feito a coisa certa – bastava ver a cara de aliviado do bebê, que só faltou me dar uma piscadinha e me convidar pra jantar.
Lembrando que a Organização Mundial de Saúde só recomenda a P.D.M.N. (Palpites Disfarçados de Mentirinha Necessária) em casos considerados graves. Em todos os outros casos, contenha-se, ô palpiteira!
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Mas voltando a Helen. Putz, os 2 meses que sucedem o parto. Por um lado a gente fica obcecada pela cria, descobre esse amor devastador e se despede pra sempre daquele moço, o tal do Ego. Por outro lado essa é também uma fase de descoberta de nossas limitações (limite de sono, limite de tempo, da conta bancária).
Assim como a Helen eu também aproveitava os 40 minutos que tinha livres para ler sobre bebês, ói que pessoa mais cheia de assunto.
Daí que ela me disse que estava tendo dificuldades em se identificar com algum tipo de movimento específico. O pessoal do attachment parenting, por exemplo, não era pra ela.
Ai, o pessoal do attachment parenting.
Pra quem não conhece esse é um movimento bastante grande e relativamente respeitado nos Estados Unidos (e mais recentemente no Brasil) que, em sua vertente mais radical, condena que o bebê durma no berço (ele deve dormir com o casal) e vê o uso de carrinho de bebês como uma maneira de separação traumática, que deve ser evitada a todo custo. A todo custo mesmo. Tipo pior que enfiar dedo na tomada, engolir moeda e bater na mãe.
Enfim, cada um cada um. Eu adoro e usei sling até não poder mais. Mas daí a pensar que colocar o bebê no carrinho significa criar o filho à distância já é um pouco demais. Além do mais, um dos meus TOC’s é achar que eu vou morrer, tipo, daqui a pouco. Então fico nessa nóia de ensinar o Noah a ter prazeres que envolvam ele e o planeta. Tipo contemplar o mar (do carrinho, comigo ao lado) e “ler” um livro (no berço, comigo ao lado).
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Mas, olha, não adianta só jogar pedra nas queimadoras de carrinho, não. Que eu ainda prefiro ser uma delas a me tornar uma mãe que acha que pode encarar a maternidade e sair completamente ilesa dessa história toda.
Algo do tipo:
“Eu vou levar esse par de sapatos, aquela saia e …só a parte boa da maternidade, por favor”.
Ou ainda:
“Men-ti-ra que eles não vêm com auto-limpante! E o senhor está insinuando que sou eu que tenho que trocar esta fralda?”
Esse era com certeza o perfil daquela mãe que virou pro meu marido e disse que meus peitos iriam cair por conta da amamentação. Juro por deus que a pessoa virou pro meu marido e esclareceu que ele deveria interromper imediatamente aquela insensatez. E em seguida ligar pra emergência do Pitangy.
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O que me traz certo conforto é saber que a maioria de nós se encontra no meio termo. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra.
Carrinho pode, sling pode, pode amamentar, pode parar, pode dormir junto, e pode dormir separado, pode dançar homem com homem e mulher com mulher.
E quem não dança segura a criança. Ou coloca ela no carrinho.
Sem achar que o carrinho é a carroça de belzebu. E nem justificar a infidelidade adulta do seu filho ao fato de ele ter dormido sozinho no berço por todos aqueles anos.
“Tadinho, ele se sentia tão sozinho, mas tão sozinho naquele bercinho, que quando cresceu já levava umas 3 ou 4 pra cama só pra afastar a solidão”, diz a mãe, cheia de culpa.





