Querido filhote,
Mamãe já te falou aqui que pra quase tudo nessa vida existe um lado bom. Na época eu te disse que as exceções à regra eram: telefone ocupado, fio de manga preso no dente e a aflição de pisar de meia no chão molhado.
Mas hoje o Brasil perdeu de 2 x 1 pra Holanda e a mamãe decidiu rever os conceitos e agregar o “ser desclassificado da Copa do Mundo” aos itens nos quais não há NADA de positivo.
Porque, filho, perder é uma merda.
E eu descobri isso quando ainda era pequena, lá nos idos dos anos 80, quando o Brasil perdeu pra algum time cujo nome não consigo repetir, tamanho o trauma.
Naquele dia em diante eu aprendi duas coisas:
1. perder a Copa é muito ruim;
2. pior do que perder a Copa é se olhar no espelho, e perceber que aquelas mechas verde-amarelas que você fez com papel crepom estão completamente impregnadas aos cabelos, e vão ficar ali te lembrando da derrota por tempo indeterminado.
Como eu não posso te vacinar contra frustrações, venho aqui tentar amenizar o baque pós-derrota-de-copa. E aprender a perder é coisa nobre, mas é tarefa tão difícil quanto se livrar da tal mecha de papel crepom.
Então vamos lá:
Técnica We are the World, We are the Children
Técnica de conformismo especialmente utilizada quando o país que ganhou do Brasil é um país muito pobre. Respire fundo e repita o mantra: “Coitados, pelo menos uma alegria pra esse povo sofrido”.
ps: esta mesma técnica se aplica a países comunistas, em guerra ou com restrição ao consumo de bebida alcoólica.
ps2: esta técnica não se aplica, em hipótese alguma, à Argentina, que apesar da dívida externa de 20 bilhões de dólares, ainda se considera país rico, louro e sem celulite.
Técnica do Deixa eles, que eles estão com a vida ganha…
Utilizada quando o Brasil perde de um país rico. Requer espiritualidade mais desenvolvida, posto que perder de rico é foda. Mas respire fundo, seja um bom perdedor e conclua “Que bom que eles continuam. Somente um país rico pode se dar o luxo de parar a economia de uma nação só pra assistir televisão. Deixa eles.”
ps: Também não se aplica a los hermanos argentinos. Porque por trás daquela arrogância e da mania de achar que é europeu, os caras são duros, filhote. Pode fazer o teste: coloca um argentino de cabeça pra baixo e sacode pra ver se cai uma moedinha sequer.
Técnica do Vai trabalhar, vagabundo!
Essa eu aprendi hoje, depois do jogo. Entrei no elevador e lá estava o vizinho, com cara de gastura. Mal me acomodei no elevador e ele já disse:
- Melhor assim. Copa do Mundo traz prejuízos irreversíveis à economia do país.
- Com certeza - eu respondi – Horrível.
- Aposto que Brasília, então, estava vazia. Aquele bando de &*%*^%$ gastando o nosso dinheiro com churrasco pra bandido. Idiotas.
- Imbecis.
- Safados. A Copa acabou, vai trabalhar vagabundo!
***
Então é isso, filho. Espero que esses conselhos sirvam pra alguma coisa, e que te ajudem a superar as muitas derrotas futebolísticas que você, como bom brasileiro, ainda vai engolir.
E se uma dessas derrotas se der contra a Argentina, filho, daí não tem jeito: senta no papel crepom e chora.
E reza pra que o Maradona não seja mais o técnico.
Porque além de lidar com a derrota, os brasileiros podem se ver obrigados a testemunhar Dieguito versão Visão do Inferno, já que o rapaz prometeu desfilar peladão no centro de Buenos Aires caso a Argentina saia vitoriosa.
(O que aumenta nossa lista de coisas que simplesmente não têm um lado bom, filhote.)
Daí a pessoa leva o filhote pra passear na praça, munida de todos os apetrechos Copísticos Brasileiros – bola, camiseta, corneta. E ensina pra cria “corneta, filho, isso se chama cor-ne-ta”.
Para logo em seguida ouvir risadinhas de um grupo de meninas, todas na faixa dos 5 aninhos.
- O que foi? – você pergunta ao grupo de meninas risonhas.
- Vuvuzela, tia.
- Hã?
- Isso aí na mão dele…se chama vuvuzela, não corneta… vu-vu-ze-la.
E se acaba de rir da sua cara, o tal grupinho de baixa idade e muita opinião formada.
Maldito conflito de gerações.
Eu sou da época em que resfriado era resfriado, dor de barriga era dor de barriga e diarréia era cocô mole. Agora parece que todas essas mazelas da saúde humana passaram a atender pelo carinhoso apelido de “virose”.
A pessoa vai dormir achando que sabe tudo e quando acorda descobre que a corneta virou vuvuzela, toda pereba agora se chama virose e o plástico virou inimigo oficial da primeira infância. Isso mesmo – parece que o inocente plástico de outrora, quando colocado no microondas, solta uma substância de nome paroxítono que pode mais ou menos dizimar com a população inteira da India.
Assim fica difícil acompanhar.
***
Mas eu só passei aqui voando pra vocês não acharem que eu desapareci, sequestrada por algum grupinho de elementos de baixa idade e muita opinião própria. Aliás, interessante como hoje as crianças são cheias de opinião, percebem?
Na minha época a gente engolia um bocado de sapo, simplesmente porque adulto era adulto e criança era criança. E adulto era dono de uma coisa a qual criança NUNCA conseguia se apropriar: a verdade.
Quer ver um exemplo?
Quando eu tinha 5 anos, guardava dinheiro dentro do porquinho. Daí um dia meu irmão mais velho veio e se apropriou de minhas economias. Eu, então, resolvi me apropriar de alguns objetos do quarto dele, mas tive que devolver tudo porque minha mãe falou que aquilo não era correto.
Ela disse que dinheiro tinha que vir de forma merecida. E que eu deveria encontrar alguma maneira honesta de ganhar – trabalhando, por exemplo.
Por dias e dias eu fiquei pensando, calculando e imaginado uma maneira honesta e merecida de capitalizar. Foi quando eu vi um tijolo. E descobri que se eu raspasse aquele tijolo, o que saía dali era um pó vermelho, parecido com o tal do blush que as mulheres crescidas usavam na bochecha.
O plano era relativamente fácil e envolvia:
1. raspar tijolos;
2. embalar aquele pó todo em pequenas embalagens individuais;
3. escrever BLUSH (em letras vermelhas), em cada um dos pacotinhos;
4. sair vendendo na vizinhança.
Alguns dias e muitos calos depois eu já tinha pó suficiente pra ser aceita em cartel de drogas colombiano.
Mas ao visitar a primeira vizinha, a propensa cliente já riu na minha cara e ameaçou contar tudo pra minha mãe. Como eu era criança de antigamente, daquelas que engoliam um bocado de sapo e aceitavam a verdade dos adultos, eu respirei fundo e falei “sim, senhora” .
Então eu joguei fora todo o fruto do meu trabalho de dias e disse adeus à possibilidade de sair na Revista Caras Kids .
Fico pensando se isso tivesse acontecido nos dias de hoje. Do jeito que a criançada é to-da cheia de opinião, a Robertinha 2010 certamente argumentaria com a vizinha, nos seguintes termos:
- Pois fique a senhora sabendo que este blush é feito de tijolo, que é feito de argila orgânica, encontrada nas várzeas e córregos. A argila é submetida a um processo natural de prensa e corte, o qual resulta neste excelente produto natural biodegradável. Agora dá licença que eu vou pegar minha vuvuzela e protestar contra esse blush químico, nocivo e testado em animais que a SENHORA insiste em usar. Humpf.
Eita, olha que honra a gente aqui ó.
Adorei a casa do astronauta, ô gracinha de lugar.
E, galera, obrigadíssima por todo o apoio e positive vibes pro meu pequeno Noah.
Shalom! Namastê! Axé!
Ele manda agradecer e diz que já está tocando o puteiro se sentindo novo em folha. E é claro que, por traz de todo filho recuperado, existe uma mãe que é só o pó feliz da vida.
Beijos a todos, a gente se vê lá na área vip do astronauta, então!
Mente quem diz que estamos preparadas pra vê-los sofrer. Não estamos. Passei aqui só pra dizer isso.
Já são 5 dias de colo constante por conta dessa virose maldita. E criança lá tinha que pegar virose? Quem foi que inventou essa brincadeira de mau gosto de que criança tem que sofrer, me fala?
Ele nasce e você se acha preparada. Daí ele pega um resfriado e você se sente de mãos atadas, mas continua acreditando que vai tirar de letra.
Mas é ao vê-lo vomitar pela primeira vez que você se dá conta do quanto suas mãos podem estar atadas. Ver a calça do seu filho cair porque ele ficou doente e perdeu peso deveria ser proibido por lei.
E diante do olhar assustado da cria, que se arregala ao perceber o próprio vômito, e procura no seu olhar a resposta pra tamanho desconforto, tudo que você consegue falar é:
- Foi a sopa filho. Ela queria muito ter ficado na sua barriguinha, mas ela lembrou que tinha compromisso e resolveu sair. Não faz mal, depois ela volta. Tchau, sopa.
Desculpem, mas hoje é assim que eu me sinto: nitidamente inapta a exercer essa tal maternidade.
Queria começar agradecendo a todas as meninas que comentaram o meu post de ontem. Foi muito reconfortante saber que não, eu não sou louca.
Lembra como a vida inteira gente aprende que as mulheres são desunidas? Pois é. Parece que essa desunião começa a sucumbir assim que a gente vira mãe, na maioria dos casos. Pode notar. Ontem mesmo. Não só a galera me disse que eu sou normal como disseram que louca era ela, a psicóloga. Quem precisa de terapia quando você pode contar com uma mulherada porreta dessa?
Mas tenho que confessar: mesmo com o aval de vocês eu tive que dar uma google-lada básica para saber, pelo menos, como lidar com essa disputa entre pai x filho. Porque claro que faz bem pro ego essa coisa de dois caras brigando por você. Mas eu não quero deixar os dois cheios de sequelas só pra sair de princesa na foto, né?
Tá, eu sei, tô sendo dramática. Mas Jocasta que é Jocasta faz tempestade em copinho de tequila, meu bem.
Daí eu caio em um forum (ai, céus) justamente sobre o tema. E lendo ali, lendo aqui, acabo caindo em um assunto que não tinha nada a ver com o que eu buscava, que é o ciúme doentio pela cria. Essa mulher, Joe (o forum era americano) dizia que estava tomada de uma ciumeira que ela considerava doentia. Que ela tinha tanto, mas tanto ciúme da filha, que não deixava a pobrezinha se relacionar com ninguém: nem com o pai, nem com a avó, nem com as tias. Mais grave ainda: ela pensava em tirar a filha da escolinha por puro ciúme da professora.
Fiquei comovida, intrigada, com vontade de dar pitaco. Passei a ler os conselhos da mulherada. Uma delas sugeria que ela criasse um blog para falar sobre o assunto, pois, quiçá outras mulheres também se sentissem assim e elas poderiam trocar idéias e trabalhar aquela ciumeira toda.
Joe então disse que já tinha tido um blog e que foi realmente muito gratificante receber comentários de tantas outras mulheres sobre o assunto. Mas que mesmo assim ela tinha decidido acabar com o blog. O motivo? “Bom, eu passei a ter muito ciúme das pessoas que deixavam comentários no meu blog porque percebi que elas comentavam também em outros blogues”.
Então, respondendo a minha própria pergunta: quem precisa de terapia quando você pode contar com uma mulherada porreta dessa?
A Joe. Desde que ela aceite que a terapeuta tenha, além dela, outras pacientes.
***
Copa X Culpa.
Hoje o maridão vai ser dispensado para assistir o jogo. Iupi! E eu também vou dar uma pausa no laboro pra torcer pro Brasil. Como a escola do Noah vai funcionar normalmente vamos deixá-lo lá e assistir o jogo inteiro, sozinhos, plenos e saltitantes.
Certo?
Mais ou menos.
Observem a equação:
Papai dispensado do trabalho + Mamãe dispensada do trabalho + Filho na escola =
ELA. A MALEDITA CULPA.
Gente, é mole?? Culpa por não trazê-lo pra casa, já que estamos aqui, sem trabalhar. Claro que o resultado de trazê-lo pra casa seria ridículo: ninguém assistiria a Copa do Mundo porque Noah insistiria em assistir ao dvd do Cocoricó na hora da cobrança de pênalti.
Acabei de passar na frente da escola, ele está lá, brincando, correndo, sendo feliz. Porque é que a gente é tão louca? (me responda, Joe!)
Tomada por esse sentimento totalmente descabido foi que eu compus o melô da Mãe Na Copa:
A culpa do mundo é nossa
Culpa de Mãe, é uma bosta
Tem culpa porque trabalha
Quando desmama
Quando desfralda
Boa Copa pra nós, mulherada.
E deixemos a culpa pra escanteio (ai, que o galvão ia adorar essa…)