9
Jun
foi com medo de avião, que eu descobri que você não tem premonição

 

E eis que após intermináveis esperas aeroportuárias, 26 horas de vôo e uma escala de alguns dias em Paris, estamos de férias no Brasil.

Noah desembarcou no Rio de Janeiro em um misto de surpresa e felicidade, reconheceu quase tudo e pareceu entender que a gente sai dos lugares, mas os lugares continuam a existir, mesmo sem a gente lá.

Confunde português com inglês, inglês com francês e conquista as velhinhas de Copacabana com seus hellos, goodbyes e good mornings, distribuídos ao maior estilo candidato a vereador.

Depois de alguns dias no Rio ele já estava totalmente reen-cario-cado, comendo biscoito Globo e dizendo que “brincou à beça” .

Porque você pode tirar a pessoa do Rio de Janeiro. Mas não pode tirar o Rio da pessoa.

Em dois dias o rapaz já parecia o Nuno Leal Maia

 

***

Eu tenho medo de voar.

Vôo porque preciso – de que outra forma poderia me aventurar por esse mundão cheio de oceano? Mas tenho medo sim, rezo terço sim e checo todas as saídas de emergência. Fico atenta aos sinais da vida e já cancelei vôo porque sonhei que o Roberto Carlos me pedia pra não voar naquele dia.

Então eis que ontem fizemos um vôo nacional, só eu e o pequeno.

Devidamente sentados, Noah levanta e distribui sorrisos pro pessoal de trás, da frente, dos lados.

- Esse avião é feio, diz ele.

A mulherada acha fofo:

- Ai, que bonitinho. Ele acha o avião feio, coisa mais linda.

- Esse avião é velho.

- O zente, que coisa mais fofa da tia, o avião é velho, que gracinha.

E então vem a profecia:

- Esse avião vai cair.

Tá? Pense numa pessoa apavorada.

O clima no avião ficou meio tenso, a aeromoça pediu pra ele sentar e as moças imediatamente fecharam a cara e pararam de achar ele fofo.

E eu pergunto a você, cara colega.

Diante de tal situação, você:

a. Pega filho e mochila e se pica daquele avião;

b. Fecha os olhos e repete o mantra “aviões não caem, crianças são loucas, aviões não caem, crianças têm TOC”.

c. Ou pensa “Pãtz, essa porra vai cair e eu não tenho nem tempo pra escrever um post, pra modo de me exibir sobre essa coisa chique do meu filho ter poderes de premonição. Merda.”

se você está lendo esse post é porque eu não tenho poderes de premonição




6
Jun
Das mentiras que contamos às mães de primeira viagem *

- Com 3 meses melhora.

- Com 6 meses melhora.

- Com 12 meses melhora.

- Com 2 anos melhora.

- Logo logo ele vai dormir melhor.

- Logo logo ela vai comer melhor.

- Ah, você vai voltar a trabalhar quando o bebê estiver com 6 meses? Que ótimo, você vai tirar de letra!

- Ah, você vai largar o emprego e ficar com o bebê o dia inteiro? Que ótimo, você vai tirar de letra!

- Como? Seu bebê tem refluxo? Estatísticas mostram que bebês com refluxo tornam-se crianças super comportadas. Comemore!

- Como? Seu bebê troca o dia pela noite? Estatísticas comprovam que bebês vampiros tornam-se escritores ilustres/pianistas célebres/(preencha com a mentira apropriada).

- O nosso organismo acostuma a dormir somente cinco horas por noite, você vai ver.

- A vida muda bem pouco com a chegada do bebê, é só saber administrar.

 

(*) título inspirado no “It gets easier…and other lies we tell new mothers” by Claudine Wolk.




25
May
vou contar TUDO pra sua mãe

Daí que uma leva de pequenos infratores adolescentes entrou aqui no blog para aterrorizar. Deixaram oito comentários, todos bem ofensivos e levianos – não fossem cômicos.

“vocês ficum colocando as fotus do filho aqui s/nem se preocupar com os pedófilo” (sic)

“Olha aí ainda se acha boa mãe espondo o filho? vou denunciar no ratinho” (sic)

E por aí vai, é sic pra dar com os pés.

Na verdade eu nem sei qual a idade do grupo. O que me leva a crer que sejam adolescentes é a postura, a falta do que fazer, a ingenuidade, AS FRASES GRITADAS (adolescente adora escrever em maiúscula) e os erros de grafia. Ah, e o Ratinho – mencionado em quatro dos oito comentários.

Se bem que tem um bocado de adulto que não tem o que fazer, é ingênuo, GRITA e comete erros de grafia (eu, por exemplo).

Mas como eu prefiro acreditar que se tratam de adolescentes, segue minha resposta:

Caros Marcelo, Fernanda, Rodrigues, Valéria e Edu (IP 189.31.38.49)

Primeiramente, saibam que a tia não está brava com vocês.

Mas eu não posso permitir esse tipo de manifestação malcriada aqui no blog, combinados?

Porque, entendam, esse é um blog bacaninha, todo bem intencionado  e frequentado por uma galera maneiríssima.

Não fica bem esse negócio de vir aqui e GRITAR, falar palavrão, escrever coração com S e ir embora, deixando apenas o seu IP. IP este que, por sinal, é de Brasília, né não?

Tá bom meninos?

Olhem. A tia vai dar um voto de confiança pra vocês.

Mas se isso se repetir vou ter que falar com a mamãe, ok?

Eu sei que essa frase é irritante mas vá lá: na idade de vocês eu estudava, dava aulas de inglês, ajudava em casa e ainda sabia cantar Faroeste Cabloco do começo ao fim, sem gaguejar.

Então bora tomar prumo nessa vida, que está mais do que na hora?

Cordialmente,

Tia Roberta

***

E eu juro que não teria problema nenhum em bater um papinho com a mãe dos meninos. Primeiro porque sou mãe e agradeço a qualquer pessoa que me faça uma reclamação (legítima) sobre a conduta do meu filho.

Segundo porque essa é minha especialidade. Oh, yes.

Quando eu morava em Londres roubaram meu celular. Não um celularzinho qualquer, mas “O” celular. Novinho, o bichinho tinha menos de 1 dia de vida. Zero quilômetro, cheirinho de fábrica.

Eu cheguei a ligar pro celular roubado e -pasmem – o ladrão atendeu! Ele tinha a voz bem rouca, nunca vou esquecer.

Fiquei tão, mas tão puta da minha vida, que esqueci de cancelar o número, só lembrando de fazê-lo no dia seguinte.

Fui à polícia, liguei na companhia telefônica e, pra minha surpresa e desespero, o ladrãozinho já havia feito quatro chamadas pra Nigéria. Quatro. Tá? Quase duzentas libras, o prejú.

Ah, eu não tive dúvida: liguei pro tal do número Nigeriano.

- Olá, meu nome é fulana, eu sou do RH de tal empresa, aqui em Londres. Nós recentemente entrevistamos uma pessoa para ocupar um posto na nossa empresa, mas infelizmente os dados fornecidos estão completamente ilegíveis! Eu adoraria poder entrar em contato, mas acho que tem um dígito faltando e …

Deu certo. A mulher falava inglês e imediatamente me disse “deve ser meu filho, moça”. E me passou nome, endereço, telefone, ele é um bom menino, tal e coisa, tchau e bênção.

No dia seguinte fui à polícia com as informações. Os policiais morreram de rir, acharam tudo muito fofo e quase me deram um emprego vitalício na Scotland Yard. Me explicaram sobre a máfia dos celulares, falaram sobre o mau tempo, agradeceram, você é uma boa menina, tal e coisa, tchau e bênção.

Mas, ai, gente, eu ainda estava deveras emburrada com a coisa toda. E sendo brasileira, a gente sempre acha que polícia…bem, vocês sabem.

Então resolvi ligar no tal do número fornecido por aquela que, supostamente, era a mãe cega do delinquente. Era um telefone fixo.

Liguei, alô.

-Alô, posso falar com Fulano?

- Sou eu, disse o ladrão rouco. Reconheci a rouquidão vida bandida na-ho-ra.

- Olha só. Eu sei quem você é. E eu quero meu celular de volta.

Desligou.

Esperei duas horas, alô.

- Alô. Eu quero o meu celular. Se você não me devolver vou fazer da sua vida um inferno.

- I don’t know what the fuck you’re talking about.

- Oh, yes, you do darling. And …

Tu-tu-tu, desligou.

Deixo passar um dia, alô.

- Sou eu de novo, devolve o meu celular.

- Não devolvo, ele está comigo but you’re so fucking annoying (você é tão pentelha) que eu não vou devolver.

- Ah, é? Então me aguarde.

E aquele virou meu hobby, por muitos e muitos dias. E noites. Ai, como eu adorava chegar da balada, as 3 da manhã, e ligar pra casa do ladrão. Ligava de manhã, de madrugada, coloquei amiga pra ligar. Foi todo um plano.

E o coitado não tinha identificador de chamadas, era um telefone fixo, ele tinha que atender.

Um dia eu cansei.

- Oi, sou eu de novo. Não desliga, não desliga! Olha só, eu cansei. Pode ficar com o celular.

E desliguei, certa de minha missão: contar tudo pra mãe dele.

Putz, não foi fácil: eu contei tudo e ela chorava rios. Me disse que já desconfiava, que tinha deixado ele sozinho em Londres mas o moleque nunca teve juízo, que o pai dele também era ladrão, que ela sabia que o certo a fazer era voltar pra Londres e colocar o rapaz nos eixos, antes que fosse tarde demais…

E o que era  pra ser uma chamadinha rápida e dedo duro virou todo um programa da Marcia Goldschmidt.

Pode ter sido uma grande mentira, mas senti muita verdade em sua voz quando ela disse que:

- Está decidido. Ele que me aguarde, estou voltando pra Londres.

Tá certo que eu fiquei sem celular. Mas me bateu uma sensação de esperança, de dever cumprido, sei lá.

Claro que antes de dar o caso como encerrado ainda faltava uma ligaçãozinha…

Liguei, não atendeu. Deixei recado na secretária eletrônica:

- Oi, Fulano, sou eu. Olha. Só pra dizer que eu já esqueci do celular, tá bom? Sério mesmo, já dei por perdido. Ah, outra coisa. Ontem eu falei com a sua mãe, a Dona Ciclana, lá na Nigéria. Ela parece ser uma pessoa incrível e ficou super decepcionada quando soube que o filho estava roubando celular em Londres. E o mais bacana é que ela está vindo morar com você. E ela está bem chateada. Quites?

***

Isso que eu ainda não era mãe.

***

E falando dos desaforos adolescênticos e internéticos que a pessoa tem que engolir, lembrei de mais uma. Tinha acabado de chegar aqui, fim do ano passado, quando recebi um email da super blogueira-mãe-fofa-linda-alta-e-loura, a Luíza, do Potencial Gestante :

Assunto: O Noah por aí

Roberta, esse site é seu ou colocaram um vídeo do seu filho por aí?

E daí ela me manda o link desse site (não, eu não vou divulgar) que vende um genérico vagabundo de um produto que meu filho usou quando tinha 10 meses.  O produto que meu filho usou era original, registrado, patenteado e produzido nos Estados Unidos. O produto que esse site vendia era, como eu já disse, um “genérico” – aqui eufemismo para imitação.

Então o que que o cara de pau pensou: vou fabricar um produto igualzinho a esse, vender on line e…usar o vídeo desse lorinho aqui pra divulgar o meu produto! Tudo bem que o produto que ele está usando não é o que eu fabrico, mas isso é só um detalhe, ninguém precisa saber.

E foi assim que ele despertou a fúria de uma mãe. E recebeu emails cabeludos de minha pessoa. E ficou com medo. E culpou o Zé, o funcionário (cla-ro!)

Eu não tive nem tempo e nem disposição para entrar com o devido processo, tinha acabado de mudar pra Asia.

Mas minha intenção é deixar bem claro pra ele, pra outros empresários mal intencionados, pra comentaristas malcriados e ladrões de celulares, que nós somos mães, somos unidas e somos MUITAS. (**)

E da próxima vez, seu empresário, eu ligo pra sua mãe. Ah, se ligo.

 

(**) Duvida que somos muitas? Olha aqui, então! Tags: site em construção/todo um mistério/o espaço é todo nosso/e os empresários que se cuidem/mães anunciando de graça/sócia misteriosa/já tem conta no twitter/mães divulgando/mães debatendo/mais um desenho da Lu.

Breve, no cinema mais perto de você.




18
May
e tatuar nome do filho, pode? (da série: run, natasha, run)

Eu sei que ainda falta uma reforminha aqui, outra ali.

Mas não está ficando um pitelzinho esta residência? Hein?

E a ilustração, que espetáculo?! Quem fez foi a Lu Azevedo, aquela fofa talentosa.

Fofa, talentosa e paciente.

Porque, né, haja paciência pra atender esta cliente mala que vos escreve. Sabe o tipo de pessoa que quer uma ilustração onde o marido figure como Tarzan? Viajando de cipó de um país ao outro?  Sem muito fru-fru, que frou-frou não combina com o estilo do blog, meio palavrãozento?

Enfim, a Lu é o cara: rápida, talentosa, tem um preço bacanérrimo e um filho lindo de morrer. Recomendo super. Depois conto mais sobre o blog e outras novidades bloguísticas. Vontade de contar já, mas ainda está no forno (não, gente, eu não tô grávida).

***

Mudando de assunto:

Meu filho é rapaz desfraldado.

E, putz, esse foi o desfralde mais rápido, inodoro e  sem traumas que qualquer mãe desfraldadora já testemunhou. O processo se deu assim: primeiro ele pediu pra tirar a fralda. Dia seguinte comprei meia dúzia de cuecas, uma caixa de lexotan, um penico e me despedi da Pampers, aquela vazada ingrata.  E foi isso, fim da história.

A partir daí não houve uma vez sequer que ele não tenha pedido pra ir ao banheiro fazer o business dele. Nenhuma.

Sério, desfralde de novela.

Mas antes que comecem a me chamar de nojenta, metida, desgraçada, esnobe, mulambenta e de outros adjetivos fofos que atribuímos às mães que se gabam de suas maternidades perrengue-free (aquelas cirigaitas do “meu filho seeeempre dormiu/comeu/mamou/cagou/acrescente aqui alguma outra mentira”), deixa eu lembrá-las que isso não veio de graça –  eu sei que vou pagar caro por esse desfralde tranquilo.

Porque a mãe natureza, minha gente, trabalha por créditos.

E a verdade é que eu estava CHEIA de créditos a receber.

A saber:

- Meu filho não dormiu a noite inteira até os 16 meses de idade, dezesseis vezes trinta e uma noites na merda, me questionando se algum dia nessa vida eu saberia novamente o que é dormir. Tenho amigas desgraçadas cujos filhos começaram a dormir a noite toda com, tipo, 5 dias de vida.

- Meu filho não comia um prato inteiro até pouco tempo atrás, tipo, ontem. Tenho amigas nojentas cujos bebês batiam pratão de arroz e feijão com, míseros 7 meses de idade.

- Meu filho sofreu com cada um dos 102 dentes nascidos. Tenho amigas mulambentas que nem perceberam a dentição: foram dormir, acordaram e os filhos estavam lá, já com um bocado de dente na boca.

De onde se pode concluir que um desfralde manso e sem problemas é mais do que merecido e foi crédito conquistado.

Um cinegrafista amador registrou o momento em que papai e mamãe natureza discutiam o caso em questão.

- Essa moça ali já passou o cão, diz papai natureza. Filho não dormia, filho não comia. Posso dar uma aliviada no desfralde?

- Tá bom, alivia – responde a mamãe natureza. Mas os créditos dela terminam aqui. E ela que se prepare que eu vou mandar uma adolescência bem cabeluda.

- Vai mandar primeira nora bem ruinzinha da cabeça, é?

- Yep. Daquelas que arrotam, colocam os pés no sofá e gritam: “tiaaaaaaa, tem refri?” E o filho dela vai ficar amarradão. E vai tatuar o nome  BIA nas costas. Não, Bia, não. Manda NATASHA que é nome mais longo, daí a tatuagem vai de ombro a ombro.

***

Falando em tatuagem, ando cheia de vontade de me tatuar.

Sério. Sabe quando coroa acorda toda Susana Vieira, achando que tem 18 anos?

Daí perguntei pra três amigas-mães-não-virtuais o que elas achavam da idéia de eu tatuar o nome do filhote no tornozelo. A resposta foi gritada, num uníssono: Não faça isso, sua louca!!!

- Pensa, Roberta, tatuagem com nome do filho!

- Imagina quando ele tiver uma namorada!

- E ela souber que a mamãe do namoradinho dela tem o nome do rapaz atrelado ao tornozelo!

- Vai te chamar de louca e desaparecer da vida dele pra sempre!

Então eu fechei os olhos e imaginei a tal Natasha fugindo do meu filho pra todo sempre, após ter reparado no tornozelo tatuado da sogra. Realmente não faz o menor sentido esse negócio de mãe tatuar o nome do filho.

(Vou marcar a tatuagem pra amanhã. Goodbye, Natasha.)

***

E pra não dizer que não houve nenhum acidente desfraldoso, tivemos dois episódios: um na escola, onde ele passa as manhãs, e um com a mamãe aqui. Devo salientar que ambos acidentes ocorreram por culpa EXCLUSIVA dos adultos envolvidos.

No primeiro acidente Noah pediu pra fazer XIXI e a professora achou que ele estivesse dizendo XIE XIE, que significa “obrigado” em mandarim.

Tá? Fiquei com uma pena do meu bichinho. Cheguei em casa, escrevi xixi e cocô num papel e entreguei pra professora, pra que ela lembrasse como que se mija em português (ô classe), até que ele se acostumasse a pedir pra ir ao banheiro em inglês.

No segundo acidente a culpa foi minha. Era o terceiro dia de desfralde e sabe quando a sua cabeça ainda não raciocina como cabeça de mãe cuequeira? Pois é. Estávamos eu e filhote em um Café, quando meu telefone tocou. Era o entregador de alguma coisa, falando sobre detalhes da entrega, horário, endereço.

- Mamãe, mamãe!

- Filho, a mamãe tá no telefone.

-Mas mamãe…

- Shhhh, Noah, mamãe tá no te-le-fo-ne.

Daí ele não aguentou esperar pela bruxa mãe e fez xixi ali mesmo, no chão.

Tá? Fiquei com uma pena do meu bichinho.

(Depois o rapaz cresce, se apaixona por pessoa que atende pelo nome de Natasha, tatua o nome da moça nas costas-ombro-a-ombro e a mãe fica se perguntando onde errou.)

***

Voltando ao lance da tatuagem. Quando Noah nasceu, a enfermeira foi logo dizendo:

- Sortuda você. Menino escorpiano é suuuuuper apegado a mãe. O meu filho Marco Aurélio, por exemplo: tá com 45 anos e ainda mora comigo. Namorador que só ele, mas não deixa a mãe sozinha de jei-to-ne-nhum. Fica só enrolando as namoradas, sabe como? E olha que ele é bonito, tem um escorpião todo bordado no braço… Aliás, não é porque é meu filho, mas..

E eu só ali, com a cria no peito, mega high em ocitocina, tentando decifrar aquele monte de previsões horóscopo-enfermeirais.

Pensamento lento, primeiro me veio a cabeça o tal Marco Aurélio e sua tatuagem de escorpião. Depois lembrei de outros dois escorpianos que eu conhecia, que…peraí…também tinham escorpiões tatuados no braço!!

Lembro direitinho que eu pensei :

“Carai, não vai ter jeito. Um dia esse bichinho ainda vai me aparecer em casa com um escorpião enorme tatuado no braço esquerdo. Porque se-to-do escorpiano faz isso, ele não vai ser diferente.”

E Noah continuava a mamar, a enfermeira a falar e eu a divagar:

“Bom, tudo bem, vai. Tatoo de escorpião é OK. Mas ó: que NUNCA me apareça de sunga amarela e nem branca”

(Please não me façam explicar os motivos de minha antipatia para com as sungas claras. Mas é que sunga clara é transparente, e acaba dando aquele efeito meio “bagunçado” na parte dianteira. A transparência da sunga dá um efeito meio acumulado naquilo tudo, percebe? Uma coisa meio sem eixo, sem norte, sem eira.)

Filho meu NUNCA vai usar sunga que deixe transparecer as partes acumuladas. E cofrinho aparecendo, então?! Soy contra, muy contra!

 

pagando a língua: agora só falta o escorpião tatuado no braço (e NATASHA nas costas, ombro-a-ombro)

 

ps1: Mas no fundo eu ainda prefiro que ele tatue o nome da namorada nas costas. Que tatuar mamãe no peitoral não dá, né moçada? (juro que já vi isso na praia…)

ps2: Mas e mãe? pode tatuar nome da cria? pode? pode?

ps3: Gente bonita, repararam que o site agora é ponto net?! Peço encarecidamente que atualizem seus feeds (é assim que fala?) pra modo de não esquecerem de mim pra todo sempre. Enquanto seu blogroll (ui!) não estiver atualizado o Piscar fica lá, perdido no mundo das desatualizações, todo tristinho, enrugado e choroso. Agora, que sacanagem desse wordpress, hein? Não podia simplesmente atualizar no automático? Humpf.

 

 




12
Apr
malandro que é malandro… já nasce falando inglês

Quando eu era pequena, eu não fui à Disney.

Ir à Disney nos anos 80 era tão caro, mas tão caro, que eram raríssimos os casos de crianças que iam passar férias por lá. Porque não bastava seu pai ter dinheiro: ele tinha que ter dinheiro E ser bacana o suficiente pra acreditar que havia algum sentido em queimar um Corcel II inteirinho só pra filha tirar foto do lado de um rato orelhudo, de nome Mickey Mouse.

Para ir à Disney uma vez por ano, seu pai tinha que ser rico e legal. Pra ir pra Disney 2 ou 3 vezes por ano, como fazia a menina Alessandra, seu pai tinha que ser o Pateta em pessoa.

***

Alessandra era menina viajada e ia pra Disney como quem ia pra Santos. De suas viagens ao “estrangeiro”, Alessandra trazia os brinquedos mais incríveis que os anos 80 viram passar.

Uma das muambas mais concorridas era um tal de um estojo, cheio de botões e compartimentos. Aquele troço fazia tanto, mas tanto sucesso entre as crianças, que Alessandra tinha que organizar uma FILA, durante o intervalo, pra que todos tivessem a chance de apertar UM botão do estojo gringo.

"quem quiser apertar um botão, faça fila aqui!"

***

Sempre que retornava da Disney, Alessandra voltava falando inglês. Era o pessoal tentar furar a fila estojal, que a menina gritava STOP, PEOPLE! Daí o sujeito terminava de apertar o botão (e só podia apertar UM botão), e Alessandra gritava NEXT!

E, ai, como eu achava chique a pessoa falar inglês.

Nessa idade, eu pensava que nunca, nunquinha nessa vida de meu deus, que eu ia aprender a falar inglês. E eu tinha meus motivos pra acreditar que meu destino seria morrer falando somente português, a saber:

1. Eu não viajava pra Disney. Aliás, eu só viajava mesmo era pra casa da minha avó, que ficava a uns 30 km da minha casa. Imagina, 30 quilômetros! Alessandra sempre dizia que a Disney ficava a milhares de milhões de quilômetros da escola e que por isso ela sempre dormia no avião. E eu fechava meus olhos e ficava imaginando que aquilo sim era uma viagem legal: uma viagem tão longa, mas tão longa, que a pessoa chegava a ter sono, dormia, comia (comida aviãozenta), fazia xixi e aprendia inglês, tudo sem sair do avião! Bem diferente de viajar no chiqueirinho da Caravan, comendo biscoito de polvilho e parando no Texaco pra fazer xixi.

2. Eu não tinha nem mãe nem pai gringo, como era o caso da Mariana. A Mariana era a melhor amiga da Alessandra, claro. As duas zanzavam de mãos dadas pra lá e pra cá, best friends de-tu-do, como elas diziam. A Mariana chamava o pai gringo dela de DAD. E se havia alguma coisa que eu realmente achava elegante no mundo, era a pessoa falar inglês com o próprio pai.

3. Minhas aulas de inglês na escola nunca seriam suficientes pra que eu aprendesse inglês. Não que o professor fosse ruim, acho até que ele era esforçado. O problema é que eu sofro de um caso crônico de dispersão, geralmente desencadeada por fatores externos, que estão além do meu controle. No caso do professor, o problema era a porra do cabelo dele, que era formado por  vazios carecas nas laterais, cachinhos rebeldes na parte de trás e  três pontas arrepiadas, que faziam sombra na parede. A sombra do cabelo do professor ia se desfigurando, formando os mais bizarros desenhos. E eu tentava me concentrar, “concentra, burra, concentra”. Mas no fundo eu sabia que nunca que eu ia aprender todo um idioma estrangeiro, enquanto distraída por figuras psicodélicas na parede, advindas do cabelo de um professor, que era versão cinquentona do Cebolinha.

Eu precisava de um plano.

***

Um dia eu encontrei um livro na Biblioteca da escola, todinho escrito em inglês.

Ele tinha um cachorro na capa e era daqueles livros que eu considerava inteligentes, posto que continha frases bem longas e pouquíssimas figurinhas. A ponto de eu realmente não ter idéia se o cachorro era feliz, triste, ou se era um gato travestido de cachorro.

Agarrei o livro, preenchi a ficha da biblioteca e levei o bichinho comigo.

“Pronto. Achei um jeito de aprender inglês. Me aguarde, Alessandra”.

O que eu não sabia, até então, era que andar com um livro em inglês nas mãos, trazia algo infinitamente mais legal do que aprender inglês em si. Andar com um livro escrito em inglês dava a falsa impressão de que você, de fato, já sabia inglês.

Coleguinhas, professoras, porteiro, moça da cantina – o povo todo olhava, via a palavra DOG na capa e sorria, impressionado.

Se eu quisesse tirar onda mesmo era só sentar lá fora, durante o recreio, levar o livro à altura do peito, abri-lo e, a cada página,  soltar expressões variadas  (risos, surpresa, tristeza, risos.)

E quem precisa de inglês, quando se nasce com tamanha cara de pau?

***

Até que um dia eu resolvo fazer o ritual dentro do ônibus escolar: abre o livro, vira a página , expressões variadas (riso, surpresa, tristeza, risos).

- Como se você estivesse entendendo alguma coisa, hahahahhaaha.

Viro pra trás e lá estão elas, as duas representantes oficiais da língua inglesa no mundo, propagadoras da cultura anglo-saxônica no hemisfério sul, temíveis perseguidoras das farsantes idiomáticas, como eu. Sim, em unha e carne, Alessandra e Mariana.

- Aposto que você não entende uma palavra que está escrita aí, Roberta – diz Mariana.

- E se não entende, tava rindo do que, hein? – pergunta Alessandra.

Então eu levanto e faço aquilo que toda criança corajosa faria,  diante de uma situação DEMOLIDORA de reputação feito essa: pego livro, mochila e a pouca dignidade que me resta, me dirijo até a porta do ônibus e, sem olhar pra trás, desço4 pontos antes do meu.

Lá de longe, ainda dava pra escutar o parzinho gritando BYE BYE!! pela janela do busão.

***

Noah está se saindo cada vez melhor no inglês e, segundo a professora, age como se entendesse tudo o que lhe é falado.

Mas é claro que o que ele entende são coisas cotidianas, da escola, do playground. Eu não espero que ele entenda um noticiário ou uma conversa entre dois adultos.

Por exemplo: no elevador do nosso prédio. Quase sempre rola um bate-papo informal com os vizinhos. E a conversinha de elevador é obviamente em inglês, o que impossibilita que Noah entenda muita coisa.

Considerando que ele é o filho da mãe dele, qual vocês acham que seria a reação do rapaz, por não entender patavinas do que está sendo falado.

Ele:

a. Chora. Esperneia. Como é triste não entender o que esse povo fala! E, deprimido, se joga no chão do elevador.

b. Fica puto da vida dele, telefona pro Conselho Tutelar e diz que tem o direito de saber sobre o que conversam os adultos, principalmente dentro de um elevador. Exige um tradutor e um advogado bilíngue.

c. Não entende porra nenhuma, mas fica mega atento à cada reação dos participantes da conversa: se os adultos riem, ele também ri, só que ri alto, exagerado, jogando a cabeça pra trás e batendo palma, feito foca.  Se os participantes da conversa, ao contrário,  conversam de maneira séria e fazem cara de espanto, ele imita, abre os olhos arregaladíssimos e ainda solta um OH MY GOD.

o palhacinho do elevador, dizem os vizinhos

e quem precisa de inglês, quando se nasce com tamanha cara de pau?

*foto do estojo chei’de guéri-guéri tirada daqui